Pena

Quarta-feira , 31 de Agosto às 15h21

E sses dias tenho sentido pena de mim. Pena do que eu faço, do que eu sinto; pena de ser eu. 

Passei a encarar toda minha existência como um desperdício de espaço: eu não pertenço a este lugar. To vendo o mundo de uma forma meio boba, como se tudo estivesse muito errado, como se aquela cama não fosse minha, mas eu sei que é. Só não me encaixo mais. 

To vendo também que aquele garoto bonito que me procurou no sábado já não tem interesse em mim. Por quê? Sei lá, por ser eu. Deixei de lado minha auto-confiança, eu não mereço ela não, sabe? Eu to aqui onde eu não devia estar, ninguém vai gostar de mim. Eu não me situo. 

E, ah, parece fácil pra você pedir pra que eu esqueça meus problemas, mas não vem com essa não, fica longe de mim. Prefiro deixar meus problemas bem aqui, na cabeça; não to querendo esquecer nada. 

Porque eu não pretendo fugir deles. Eu os enfrento. Mesmo sabendo que não tem lugar pra mim no mundo, eu o enfrento. Bem assim, de cabeça erguida.  Mesmo quando nem cabeça eu tenho mais. 

Só pra continuar tendo pena de mim. 

 


Escrito por Letícia Lemos




(Re)encontro

Segunda-feira , 08 de Agosto às 16h14

F azia muito tempo que não nos falávamos, e eu estava muito bem na minha mais falsa imitação de quem estava bem. Eu parecia meio culta, como quem preferia estar sozinha, como quem via beleza na solidão, e talvez visse.

Não é como se alguém percebesse, e eu até gostava disso. Estava me acostumando a ficar sem você, com aquele vazio que já fazia parte de mim. Doeu por tanto tempo que me acostumei. Me acostumei com a sua ausência. Embora você continuasse ali, como um fantasma.

Era pra você que eu contava a história do meu mais novo livro, ou pra quem eu cantava aquela música que tanto nos fazia bem. Eu jantava com um prato a mais na mesa: aquele ali era seu.

Eu sabia que você não viria, mas meu coração dizia o contrário. "Ele ta chegando", mentia. E eu, na minha mais nova forma de ingenuidade, acreditava.

Deve ter sido por isso que achei meio estranho te ver de novo. Poderia acreditar que era só o seu fantasma me atormentando mais uma vez...mas dessa vez eu sabia que era real. Estava a praticamente um braço de distância; eu poderia te tocar.

Você parecia ainda mais surpreso do que eu. Por quanto tempo meus fantasmas tinham lhe atormentado? Talvez eu nunca descobrisse.

Em algum canto, alguém falou. Não é como se eu estivesse prestando muita atenção, mas parecia ser uma piada. Eu comecei a rir. Não sei ao certo porquê, mas eu ria. E você também.

Então, nós rimos. Rimos como não fazíamos há muito tempo, de uma forma que eu sequer lembrava. Eu já não tinha ideia do quanto aquilo era bom.  Naquele momento, percebi o quanto sentia falta daquela risada. Percebi que fazia meses que seu fantasma estava comigo, mas ele não fazia muito mais do que atormentar minha vida com a ideia de sua presença. Com aquele seu espectro agonizante que não permitia ser tocado.

A realidade era muito melhor.

Eu podia sentir um muro de mágoas e acontecimentos que impedia que pudéssemos simplesmente largar tudo aquilo e corrermos um para o outro. Era algo simplesmente grande, e existia há um bom tempo. Tempo suficiente. Tempo demais. Estava bem claro que havia ainda uma barreira entre nós. Mas o que tínhamos era verdadeiro demais: quebrava barreiras.

Não sabia ao certo o que aconteceria depois. Talvez não mudasse nada - as chances eram grandes -, mas nenhum de nós estava pensando nisso. Certamente poderíamos resolver aquilo mais tarde. Aquele sentimento era recíproco, dava pra ver.

Já não sabia mais se era amor: isso já devia ter se extinguido. Mas continuava forte. Naquele momento, simplesmente continuamos rindo. Não da piada, que nem era tão engraçada assim.

Ríamos por puro egoísmo, porque tínhamos saudade daquilo.

Só por isso.


Escrito por Letícia Lemos




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