Devaneios

Sexta-feira , 08 de Junho às 18h49

R espirei fundo. Tic, tac, tic tac. Maldito relógio. Minha mente vagava por outros cantos, que não aquele. As vozes pareciam distantes, como num pesadelo; eu iria acordar em breve. Tic tac, tic, tac. Não dava pra acreditar no que estava acontecendo, mas não imaginava estar ali sem que isso estivesse MESMO acontecendo. Chico Buarque cantarolava na minha mente (ou no que restara dela) “Rompi com o mundo, queimei meus navios / Me diz pra onde é que inda posso ir”, cala a boca, Chico. Eu sequer conseguia chorar: não restara coração naquele instante. “Se nós, nas travessuras das noites eternas / já confundimos tanto as nossas pernas / diz com que pernas devo seguir”; a vida segue, então? Não, não segue. O que eu deveria fazer agora? O que eu deveria falar? Tic, tac, tic, tac. Ele me olhava com aqueles olhos de quem não faria mal a um inseto, mas que devorava almas sem ao menos perceber. Deu-me um beijo na bochecha, como quem dissesse “não foi tão ruim assim”, mas foi, ele sabia disso: foi. “Se juntos já jogamos tudo fora / me conta agora como hei de partir”, nem precisei, ele já havia feito isso. Continuei ali, sendo um eu sem ele; sendo metade. “Te dei meus olhos para tomares conta / agora me conta como hei de partir” Cala a boca, Chico. Não precisei.


Escrito por Letícia Lemos




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